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Paradoxo do Direito: entre o avanço teórico e o retrocesso prático

O Professor Paulo Bonavides tem um
dos currículos mais brilhantes dentro do campo da Ciência Política. No entanto, sua biografia o coloca como um homem cuja vivência foi muito além da teoria. Ele participou ativamente de momentos significativos da história brasileira e internacional como jornalista, advogado, professor e pesquisador. Vários títulos

conferem a ele a autoridade para falar sobre a posição do Direito diante dos conflitos internacionais, a emergência do Estado Social, a autocensura da imprensa contemporânea, o Centenário da Faculdade de Direito etc. Todos estes temas estiveram na pauta de conversa dinâmica, em que a argumentação crítica veio acompanhada da simplicidade dos grandes mestres.

MP & Sociedade: O senhor tem uma trajetória brilhante, desde cedo se destacando na seara da Ciência Jurídica. Gostaria que o senhor nos falasse um pouco sobre o seu ingresso no curso de Direito e sua formação acadêmica?

Prof. Paulo Bonavides: A minha vida acadêmica ocorreu vinculada a duas faculdades de Direito. A primeira foi a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Fiz os dois primeiros anos do curso aqui. Em seguida, tive que interromper meus estudos por conta de um convite para integrar-me a um grupo de jornalistas norte-americanos, chamado Nieman Fellows, que funcionava na Universidade Havard. Assim, passei um ano (entre 1944 e 1945) letivo nos Estados Unidos. De sorte que, quando voltei ao Ceará já estávamos no segundo semestre de 1945 e eu havia perdido dois anos de minha graduação. A quebra no meu trajeto acadêmico e o desencontro com antigos amigos de curso me fizeram seguir para o Rio de Janeiro no final daquele mesmo ano, quando me matriculei na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Brasil. Lá cursei os três anos que faltavam para concluir minha graduação. Assim, me formei no dia 22 de dezembro de 1948, em uma turma paraninfada pelo eminente professor e grande orador Pedro Calmon. Em janeiro de 1949 retornei ao Ceará. Local este que, apesar de minhas muitas viagens, sempre considerei minha casa.

MP & Sociedade: Observando alguns dados de sua biografia, há um claro divisor de águas quando o senhor deixa de exercer o jornalismo e opta pelos estudos jurídicos. Como aconteceu essa escolha?

Prof. Paulo Bonavides: Realmente, há essa divisão em minha trajetória profissional. O ponto culminante para minha definição de rumos: o jornalismo ou o magistério - durante muito tempo fiz ambos – aconteceu em 1958. Neste ano rompi os laços profissionais com a imprensa quando prestei o concurso para Professor Catedrático de Teoria Geral do Estado da Universidade Federal do Ceará, defendendo a tese intitulada “Do Estado Liberal ao Estado Social”. Mas, no período em que era professor visitante no Seminário Românico da Universidade de Heidelberg, em 1952, ainda estava vinculado profissionalmente à imprensa cearense através do jornal “O Povo”. Na época, escrevia diversas matérias sobre as impressões do pós-guerra alemão. Fazia isso paralelamente às aulas de Língua e Literatura Portuguesas que ministrava em Heildelberg a convite do professor Harri Meier. Também aproveitei minha estada na Alemanha para me aperfeiçoar. Eu freqüentava diversas aulas proferidas por figuras ilustres e que muito me marcaram como o professor Ernest Forsthoff, Walter Jellinek (também conhecido como Jellinek II) e muitos outros.

MP & Sociedade: Como começa esse interesse tão profícuo com a Alemanha? Como o senhor avalia a sua participação na difusão das teorias jurídicas alemãs?

Prof. Paulo Bonavides: Bem, esse contato foi estimulado por uma necessidade de ordem intelectual de aprofundar meus estudos jurídicos através de uma familiaridade com os autores mais célebres da Alemanha no campo da Filosofia do Direito e da Sociologia Jurídica. Ao meu ver, o verdadeiro fundador da Sociologia Jurídica do século XX foi Ehrlich que teve uma célebre polêmica com Hans Kelsen. Eu acompanhava de perto o trabalho do filósofo alemão Gustavo Radbruch, pensador com uma presença muito forte em Heildelberg. No próprio Seminário, também fui bastante influenciado pelo professor Walter Jellinek que ministrava a disciplina de Direito Administrativo. Tudo isso foi, gradualmente, me inclinando para dar uma certa preferência às letras jurídicas alemãs. Além deste contato mais acadêmico, desde menino sempre tive uma profunda admiração pela cultura e pelo povo alemão. Isto se deu em várias áreas: no domínio da Filosofia, da História, da Ciência... Consegui fazer uma linha de separação muito distinta entre os aspectos político e cultural da Alemanha. Sempre achei detestável e pérfido o sistema político totalitário alemão. Durante a minha infância eu já era testemunha do mal que representava o Nazismo. Mas, no mesmo passo, nunca confundi o totalitarismo de um breve período histórico com a tradição secular de seriedade e profundidade dos alemães no campo Jus-filosófico. Digo isso porque me recordo de um episódio bastante curioso que ilustra a confusão que se faz entre essas duas esferas. Ainda menino, quando entrei no jornal “O Povo”, mediante concurso, comecei a estudar alemão com um professor germânico de nome Guilherme. Matriculei-me no curso e comprei um livro intitulado “Você quer aprender alemão?”. Bom, isso causou uma certa celeuma na época (1938), em plena 2a Guerra, e o livro acabou sendo confiscado na redação do próprio jornal. Tudo porque um funcionário havia me visto com o livro e o apresentou ao diretor do jornal, o senhor Demócrito Rocha, dizendo que o veículo combatia o nazismo e o repórter estava contraditoriamente aprendendo alemão. Na ocasião, o Demócrito me chamou em sua sala e, de forma bastante paternal, me disse que a maioria das pessoas ainda não distinguia os valores da nação alemã do terror propagado pelo Nazismo. Portanto, ele me aconselhou a adiar os meus planos de estudar alemão até que a situação do país voltasse à normalidade. Então, segui seu conselho e só vim retomar os estudos de alemão depois da minha formatura, em 1950. Isso me foi muito útil porque me serviu de base quando, em 1952, fui convidado pela primeira vez a lecionar em Heildelberg. A partir daí, nunca mais quebrei meus vínculos com aquele país. Aliás, deve-se ressaltar que, a partir dos anos 50, a Doutrina Jurídica Alemã foi muito importante para o Brasil. O grande precursor desse movimento não fui eu, mas sim o professor Pinto Ferreira da Universidade de Pernambuco através do seu célebre Tratado de Direito Constitucional. Desta forma, além de um espaço significativo em minha trajetória, a Alemanha também se fez presente nos estudos jurídicos nacionais.

MP & Sociedade: Uma característica da sua obra é o posicionamento forte contra os regimes totalitários, isto mesmo em face à Ditadura Militar. O senhor sofreu algum tipo de perseguição?

Prof. Paulo Bonavides: Sempre lutei no campo das idéias contra os sistemas totalitários e autocráticos, tanto na Europa quanto na América Latina. Dentro dessa linha, atravessei duas ditaduras. A primeira, a Ditadura Civil de Vargas, o chamado Estado Novo. Porém, a segunda, a Ditadura Militar foi mais longa e mais perversa que a primeira. Além da questão da tortura, a Ditadura Militar perdurou por duas décadas e condenou toda uma geração a ter seu pensamento confinado. Isto teve uma conseqüência gravíssima a longo prazo porque levou a uma deseducação política. A partir daí, a juventude começou a distanciar-se da política como nós podemos observar hoje. Eu, sempre que pude, estive na linha de frente contra esses regimes totalitários. Dentro da minha bancada como professor, na escrita como jornalista e no campo teórico como pensador, sempre fiz o possível para lutar contra os sistemas autoritários. Acho que, em linhas gerais, isto é o mais importante na minha trajetória. Preocupo-me em ter uma postura coerente entre o meu discurso e as minhas atitudes. Porém, poderia relatar como ilustração um episódio em que, em pleno Regime Militar, me disseram que “minha sorte estaria selada” e eu seria cassado. Isso porque, mesmo diante do quadro de repressão política, publiquei um livro chamado “A Crise Política Brasileira” (1969) no qual sustentava que, na prática, só havia um partido no Brasil. Com isso, eu buscava caracterizar qualitativamente que aquele sistema era uma forma dissimulada de supressão da Democracia. O pluralismo político do período militar (Arena versus MDB) era apenas uma fachada para o sistema de um único partido com acesso ao poder.

MP & Sociedade: Fora do Brasil, já houve algum tipo de censura ao seu pensamento?

Prof. Paulo Bonavides: Recordo-me de alguns momentos. Um foi na Espanha, no fim da Ditadura de Franco (1972), quando me apresentei em um Seminário Internacional em Barcelona, na inflamada região da Catalunha. Na ocasião, proferi uma conferência sobre federalismo regional e também concedi uma entrevista sobre o tema para a televisão espanhola, com cerca de 11 milhões de espectadores. Quando comecei a dar a entrevista e falar sobre a autonomia regional houve um sinal da produção e a entrevista foi interrompida. Na hora, me disseram que havia sido uma falha técnica. Porém, quando retornei ao Seminário à noite, fui informado que na verdade eu havia sido censurado. Fiquei até com um certo receio de que acontecesse algo pior, mas fui tranqüilizado pelos colegas que já viam os sinais de fraqueza da Ditadura de Franco. Gostaria de ressaltar este episódio porque é curioso que as mesmas críticas que fiz na Espanha, há mais de 20 anos, também as reproduzi na recentíssima Ditadura Constitucional do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Vi-me, novamente, convivendo com uma censura velada. A diferença é que desta vez não havia um censor externo, mas os próprios veículos jornalísticos faziam uma autocensura das críticas ao governo de então. Era interessante perceber como muitos se calavam diante de um processo de desnacionalização, das privatizações escusas, dos golpes à soberania nacional. Proferi várias palestras sobre o tema e, no outro dia, não havia nenhuma linha sequer nos jornais. Constata-se que a imprensa brasileira ainda sofre do flagelo que é a autocensura. Isso é mais nocivo ao futuro e à consolidação das liberdades públicas do que uma ditadura ostensiva. Porque esta última derruba-se pelas armas ou pelo voto, agora nos vemos diante do autoritarismo econômico que é terrível de se combater. Atualmente, há uma mercantilização de tudo, principalmente da informação. Precisamos resgatar o valor social da imprensa, restituindo a ela um caráter pedagógico. Isso não ocorre, exatamente, devido à lógica capitalista. A minoria que detém o poder econômico controla os veículos de comunicação como também outras instâncias da sociedade. Hoje, já não é o capitalismo industrial que nos assombra, mas o que agora nos apavora é o capital financeiro volátil que atravessa as fronteiras. O poderio econômico não mais se contenta com a manipulação do câmbio e das bolsas, mas invade as nações, confisca-lhes a soberania e expõe o mundo ao pior dos terrorismos que é o do capitalismo munido com as chamadas “armas inteligentes”.

MP & Sociedade: Aproveitando a deixa, como o senhor vê a validade e a sobrevivência dos acordos internacionais diante da recente guerra entre EUA e Iraque?

Prof. Paulo Bonavides: Esta é uma guerra de nítido teor imperialista que ofende a consciência da humanidade. Há uma conspiração contra o humanismo em si porque se quer recriar e referendar a unipolaridade que parte da trincheira capitalista dos Estados Unidos da América. Existe a impressão de que estamos ressuscitando os regimes totalitários da 2a Guerra Mundial. Temo que depois do Iraque outros países venham a ser anexados em um processo de desprezo ao Direito Internacional e ao princípio de autodeterminação dos povos. Eu espero que a ONU não venha a ter o malogrado fim da antiga Liga das Nações. Estamos em um momento em que os tratados internacionais, a Ciência Jurídica e o próprio Constitucionalismo avançaram muito na teoria, mas esbarram no poderio econômico. Isto nos leva a uma discussão maior. Hoje, o Constitucionalismo deixou de basear-se em regras para ter como base princípios. Isso nos levou a um avanço qualitativo na velha normatividade. Quer dizer que o princípio da legitimidade voltou a ter sua hegemonia sobre o princípio da legalidade. Há uma nova hermenêutica que se funda na consideração desses princípios, baseada na equidade. O Direito Constitucional contemporâneo oferece um quadro teórico para nós realizarmos a Democracia como fundamento da sociedade humana. Esta Democracia que é o coroamento, como direito da quarta geração, de um processo de universalidade da justiça na emergência do Estado Social. Porém, é preciso que o gênero humano coloque esses avanços teóricos na prática e desperte para um futuro melhor.

MP & Sociedade: O senhor acompanhou de perto vários momentos da história da Faculdade de Direito. Tendo como mote à reflexão por conta do Centenário da Instituição, ao seu ver, qual o momento mais significativo da trajetória do curso?

Prof. Paulo Bonavides: Tive a feliz oportunidade de não só observar como também participar da história da Faculdade de Direito em dois momentos distintos: como aluno e como professor. Recordo-me que com naturalidade fui me envolvendo nas ações do curso. Logo que ingressei na Faculdade de Direito do Ceará eu fui eleito orador oficial do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua (CACB). Foi um momento significativo porque me deu a oportunidade de participar da campanha de construção do Obelisco da Vitória, que até hoje permanece em frente ao curso e que é o grande símbolo da consciência estudantil na resistência aos regimes totalitários. Lembro-me de outro momento importante quando já era professor, mas o curso ainda não havia sido refederalizado. Naquela época, eu e o Prof. Martins Filho lutamos pela criação de uma Universidade Estadual que pudesse abrigar o curso de Direito. Ainda nesse momento histórico, na noite em que eu ia proferir uma conferência sobre a questão universitária, tema este que eu já havia abordado em um livro intitulado “Universidades da América” (publicação de 1946 que ganhou o Prêmio Carlos Laet da Academia Brasileira de Letras em 1948), houve uma manifestação estudantil e o curso foi cercado pelas tropas do então governador Faustino de Albuquerque. Aquele tumulto impediu que o tema das Universidades fosse colocado em debate. Porém, posteriormente, o Prof. Martins Filho consegui retomar a luta pela criação de uma Universidade, indo além ao ajudar na fundação de uma Instituição Federal. Aliás, é bom ressaltar que a Faculdade de Direito é o berço da Universidade Federal do Ceará. Ao meu ver, este é o ponto mais significativo desses 100 anos de história.

MP & Sociedade: Atualmente, como estão suas atividades profissionais? Há algum projeto em especial?

Prof. Paulo Bonavides: O próprio Centenário da Faculdade de Direito está me dando a oportunidade de retomar um projeto que tenho em mente há tempos que é a criação de uma Revista Latino-Americana de Estudos Constitucionais. Esta Revista está sendo publicada pela editora Del Rey e faz de Fortaleza um centro jurídico de envergadura internacional. Isto vai nos proporcionar um incremento dos estudos jurídicos feitos em intercâmbio com os países irmãos do continente. Optamos pelo título que se refere aos “Estudos Constitucionais” exatamente para ter uma maior abrangência e receber contribuições da Ciência Política, da Sociologia Jurídica e de outras áreas afins. Este primeiro número da Revista, por ser uma edição especial, tem cerca de mil páginas. Os próximos números terão a tiragem semestral e, certamente, vão se consolidar como um veículo ímpar na divulgação dessa matéria.

Para saber mais...
Para saber mais sobre a trajetória do Professor Paulo Bonavides uma boa sugestão é a biografia recentemente lançada pela Coleção Terra Bárbara da Fundação Demócrito Rocha. O Juiz de Direito Antônio Carlos Klein assina com primor a autoria do livro. O grande mérito desta publicação é alinhavar cronologicamente as várias facetas de atuação do Professor Paulo Bonavides sem tornar-se uma prosa enfadonha. Datas, informações e títulos são colocados com leveza ao longo do texto. Aliás, com uma atividade tão rica e precoce o personagem principal desta história parece ter sido feito sob encomenda para ilustrar um período significativo da história nacional. Oligarquismo, 2a Guerra Mundial e Ditadura Militar são colocados como pano de fundo em um texto ágil que, sem inflar-se em adjetivos, dá o seu recado.

Serviço:
Paulo Bonavides
Coleção Terra Bárbara.
Editora: Fundação Demócrito Rocha.
Preço médio: R$ 5, 00.