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O Centenário como mote à reflexão
Após um século de existência a Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Ceará festeja uma brilhante trajetória,
incorpora o espírito guerreiro e enfrenta o seu segundo
batismo de fogo.

A Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC) completa 100 anos tendo nas comemorações um mote à reflexão sobre as condições da Instituição. Ao longo do ano, estão agendados diversos eventos referentes ao centenário que também será homenageado em junho, durante o Congresso Jurídico Brasil 2003. O primeiro evento ocorreu dia 21 de fevereiro durante a solenidade de abertura do Encontro Nacional de Dirigentes de Cursos e Faculdades de Direito de todo o Brasil e do Simpósio Internacional sobre o Futuro do Direito. Na ocasião em que estiveram presentes figuras ilustres do universo jurídico o professor catedrático da Casa, Paulo Bonavides, fez um perspicaz discurso sobre a Faculdade e seus caminhos diante da atual conjuntura. Em muitos aspectos, a trajetória da Instituição confunde-se com a própria história do Ceará.
A então Faculdade Livre de Direito do Ceará foi fundada no dia 21 de fevereiro de 1903, com o ímpeto de jovens bacharéis que reunidos na sala da Associação Comercial resolveram dar um ultimato às pendengas políticas que emperravam a criação do curso desde o século XIX. Nascida em uma época de tumultos, a Faculdade passou por um batismo de fogo logo nos primeiros anos após sua instalação quando a disputa entre a oligarquia Accioly e o coronel Franco Rabelo atingiu em cheio a Academia. Na época, havia uma clara necessidade de se criar mecanismos de ensino superior que atendessem à sociedade cearense. O Estado contava apenas com alguns centros educacionais de nível médio e a saída para os que desejavam um diploma de nível superior era, irremediavelmente, a migração. Isso acarretava o atrofiamento de nossa produção intelectual, condenava os mais pobres a ficarem à margem da instrução e contribuía para nossa dependência a grandes centros nordestinos. Não é à toa que grande parte das mentes jurídicas do Ceará tinha seus diplomas chancelados pela Faculdade de Recife.
Assim, para “operar um salutar abalo intelectual” - como disse Nogueira Accioly em seu primeiro discurso como Diretor, no dia 1o de março de 1903 foi lavrada a ata de instalação da Faculdade Livre de Direito do Ceará. A partir de então, o curso começou a funcionar no andar superior do antigo prédio da Assembléia Legislativa, hoje Museu do Ceará, situado na Praça dos Leões. No andar térreo desse espaço funcionava a biblioteca da Faculdade que deu origem à Biblioteca Pública do Estado, desmembrada por força de lei em 03 de agosto de 1925. Dez anos depois, começa a construção do novo edifício do curso, inaugurado em 12 de março de 1938 na então Praça da Bandeira, hoje Clóvis Beviláqua. Durante muitos anos a Faculdade teve que lutar por sua oficialização como Instituição pública. O Estado do Ceará foi o primeiro mantenedor do curso que passou por dois momentos de federalização, em 1934 e em 1946. Finalmente, nos anos 50, a Faculdade de Direito livra-se das marés da política nacional e local, fixando-se como o berço da Universidade Federal do Ceará (UFC). O Professor Paulo Bonavides afirma ser este o ponto mais marcante durante esses 100 anos: “Afinal, não se pode negar o destaque ao fato de que foi nesta Casa, na Faculdade de Direito, que nasceu a própria Universidade”, afirma. Do ponto de vista acadêmico, o também professor da Casa e livre-docente em Direito, Arnaldo Vasconcelos aponta dois momentos cruciais na trajetória da Faculdade. Segundo ele, o primeiro teve efeitos maléficos e aconteceu durante a reforma educacional instituída pelo Ministro Jarbas Passarinho que acarretou na descentralização do curso em departamentos distintos e na perda do sentido de unidade entre seus membros. O segundo foi uma prova de competência quando a Faculdade saiu na frente e criou o primeiro Mestrado na área jurídica do Ceará.
Todos essas datas e números apontam a evolução de uma Instituição que ao longo de um século mostrou não ser apenas fruto de um arroubo juvenil. Muito pelo contrário, a solidez das idéias caracterizou o curso que, no entanto, nunca perdeu o espírito guerreiro. A maior prova dessa fermentação política está no fato de o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua (CACB) ter sido, em vários momentos, um propulsor de ações.Vale lembrar que, foram os acadêmicos de Direito, ligados ao CACB que fundaram a União Estadual dos Estudantes (UEE). Em 1949, um episódio marcante aconteceu quando a UEE aliou-se à Congregação dos Professores contra o autoritarismo do governador Faustino de Albuquerque que havia autorizado um cerco policial às dependências do curso. No início da década de 50, surge na Faculdade de Direito o embrião da luta pela criação da Universidade do Ceará. Em 1957, o poderio político do CACB fica patente pela sua influência na criação do Diretório Central dos Estudantes (DCE).
Porém, sem dúvida nenhuma, foi durante o período final da Ditadura Militar que o movimento estudantil ganhou corpo na Faculdade de Direito. O Promotor de Justiça Manuel Lima Soares Filho, Presidente do CACB durante o início dos anos 80, lembra dois episódios significativos: o apoio da classe estudantil às Instituições do Estado Democrático de Direito lutando bravamente pela convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte; além da campanha dos alunos, funcionários e professores para restaurar a condição de Faculdade ao então curso de Direito, durante as comemorações do 80o aniversário da Instituição. Seu alcance político é inegável. Se observarmos pelo viés das instâncias formais, a Faculdade de Direito foi a escola de onde saíram inúmeras figuras de destaque como: Dolor Barreira, José Martins Rodrigues, Plácido Castelo, Paulo Sarazate, Raul Barbosa, Adail Barreto, Álvaro Costa e, posteriormente, seu filho Álvaro Augusto (atual Advogado Geral da União) dentre outros. As discussões acadêmicas sempre ajudaram a formar incontáveis mentes preocupadas com os rumos do país. Seja através de pessoas que ocupavam cargos oficiais ou daqueles anônimos que lutaram no movimento estudantil e na clandestinidade, o pátio da Faculdade de Direito tornou-se uma grande arena de intervenção social.
Atualmente, um dos grandes desafios da Instituição é recuperar-se do estado de sucateamento em que se encontra. Ao longo dos últimos anos, a Universidade Pública teve que “se ajeitar” com a escassez de recursos e enfrentar a concorrências de novos e numerosos cursos particulares. No entanto, a salutar concorrência do mercado abre uma fresta para que se enxergue a condição de defasagem da Faculdade de Direito. Segundo Anna Paula Pinto Cavalcante, aluna do 3o semestre, o maior problema está no obsoleto acervo da biblioteca e no quadro de professores combalido pela falta de concursos públicos para cargos efetivos. “Nosso diferencial ainda é o nível dos alunos. Passar no vestibular é muito difícil e nos confere um certo reconhecimento. Porém, a cada semestre vemos a saída de grandes professores e nos sentimos desestimulados pela ausência de equipamentos básicos”, afirma.
É exatamente diante desse quadro de dificuldades que a Faculdade de Direito mostra seu poder de luta. Agora, a batalha é pela própria renovação. Neste ponto, a Instituição ganha referência pela produção cientifica através de bolsas de iniciação à pesquisa e pelos programas ligados à assistência social. Hoje, são ao todo quatro Projetos de Extensão. Dois deles, o CAJU (Centro de Assessoria Jurídica) e o NAJUC (Núcleo de Assessoria Jurídica Comunitária) que funcionam como escritórios modelos no atendimento a comunidades carentes. Existem ainda dois cursos de alcance popular: o Curso Pré-vestibular Paulo Freire que atende a alunos de escolas públicas e o Curso Paulo Bonavides que tem como objetivo difundir noções preliminares de Direito e de cidadania a várias camadas sociais. Em todos os casos os alunos funcionam como aprendizes monitorados por professores. Principalmente na área da pesquisa científica, a falta de professores efetivos e com titulação transforma-se em uma ciranda perversa porque a cota de verbas é medida pela classificação e produção do corpo decente. Assim, é preciso que se tenham mais professores para gerar mais bolsas que por sua vez incentivam a produção acadêmica dos alunos.
Uma forma de romper com esse sistema é levar as atividades da Faculdade de Direito para fora dos muros da Universidade. A participação dos alunos em projetos sociais além de dar uma lição de cidadania e ajudar no aprendizado do batente jurídico faz com que a realidade da Instituição saia de seus próprios limites e ganhe eco na sociedade para qual o curso foi pensado. Além do que, devemos lembrar que o tipo de cuidado que temos com nossa educação, invariavelmente, volta-se para nós. Segundo o advogado e presidente da Associação dos Ex-alunos, Sabino Henrique de Carvalho, os eventos que envolvem o aniversário da faculdade devem ultrapassar o aspecto festivo e servir de catalisadores para ações de revitalização da Instituição. Hoje, a Faculdade de Direito comemora o seu centenário motivada por sua história de luta que a coloca diante de seu segundo batismo de fogo.