biografia, que acabara de receber. A irmã caçula, Maria Luíza, a quem Rachel amava como filha, havia chegado de viagem. Ao visitá-la, perguntou:
- Tudo bem, minha Teté?
- Só não estou melhor porque não estou no Ceará, respondeu Rachel.
Essa frase, uma das últimas que proferiu, carrega em si a essência da vida de Rachel de Queiroz. Na última conversa com a irmã, de tudo o que viveu nesses tantos anos, só lembrou a saudade do seu Ceará, a razão de sua vida, o fio condutor de sua obra.
Nesses quase 93 anos, Rachel viveu tudo intensamente, entregue por inteiro. A partir dos 20 anos de idade, começou a participar ativamente da vida política do Brasil, usando a palavra como instrumento.
Começou a carreira de jornalista em uma publicação anticlerical. Adolescente, sonhou em ser raptada pela Coluna Prestes e viver como heroína. Recebeu a bênção do Padre Cícero. Foi comunista nos anos 30, participou de reuniões do Partido, foi presa e teve livros queimados em praça pública. Abandonou a militância ao ver seu trabalho censurado pelos colegas de partido. Falou contra Hitler quando foi preciso. Defendeu os judeus e o sionismo. Lamentou, em suas crônicas, a destruição da Europa pós-Guerra.
Apoiou o Golpe Militar de 1964, com esforço e veemência, fato que até hoje divide opiniões sobre ela. Rachel nunca negou essa passagem de sua vida, sempre apresentando claramente a sua versão dos fatos.
Foi convidada para ser ministra da Educação, mas não aceitou. Passou quatro meses na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, em missão diplomática a serviço do Governo Brasileiro.
Na literatura, conviveu com uma geração de grandes escritores. Ajudou a inaugurar, com seu livro de estréia, O Quinze, um novo movimento literário, mesmo sem saber. Acompanhou a gestação de grandes obras da literatura brasileira, entre conversas animadas e xícaras de café com José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Jorge Amado.
Recebeu os prêmios literários mais importantes da língua portuguesa, além de comendas oficiais e título de Doutor Honoris Causa em várias universidades brasileiras.
Quebrou tabus, abriu as portas da Academia Brasileira de Letras e chamou as mulheres do Brasil para conhecer novos caminhos. Fez o que desejou, falou o que teve vontade.
Tudo começou nas madrugadas do sítio do Pici, onde a família Queiroz morava. Quando os irmãos e os pais dormiam e chegava o silêncio, Rachel pegava lápis, um caderno escolar e ia para perto do lampião deitar de barriga no piso da sala e escrever o seu livro sobre a seca.
Assim, sem despertar suspeitas, Rachel escreveu um livro inteiro, que batizou com simplicidade: O Quinze.
Depois do trabalho pronto, Rachel revelou o segredo e o mostrou a seu pai, que gostou do texto. Como incentivo, lhe deu uma máquina de escrever Corona de segunda mão, comprada de um padre amigo, Frei Leopoldo.
Além de Daniel, os primeiros leitores do livro foram a sua mãe, Clotilde e o amigo Beni de Carvalho. Rachel passou os manuscritos a limpo em sua nova máquina e decidiu levá-los para publicação.
Não havia editora no Ceará, nem nada parecido, mas Rachel e o pai descobriram a Tipografia Urânia que poderia publicar o livro. O trabalho foi enviado, publicado e logo em seguida ganhou o Prêmio Graça Aranha de Literatura.
Creio que o escritor é, antes de tudo, um missionário. Costuma-se dizer que o escritor não escolhe o tema de seus textos, o tema é que o escolhe.
Dessa maneira, o Ceará escolheu Rachel como porta-voz de suas belezas e de seus infortúnios. A menina, desde os vinte anos de idade, aceitou o convite e nunca esqueceu o seu compromisso.
A missão de Rachel como escritora foi deixar registrado para as futuras gerações a imagem do seu Ceará. Um retrato em prosa.
A descrição perfeita da seca, o solo esturricado, rachado. O mandacaru, como um milagre, florindo. A lâmina de água do açude, que quando chove, sangra.
O sertanejo, forte, corajoso. De pele morena, rosto marcado. O gado, o couro, o leite mugido. A mulher do sertão, frágil e destemida, bonita e de pele curtida de sol. Mãe de tantos filhos. Uns que crescem, outros que ficam pelo caminho.
A carcaça do boi, que de tempos em tempos, aparece espalhada no chão. Calango, macaxeira, farinha, rapadura. O olhar da criança, inocência que surge em todos os seus livros, dos pequenos retirantes de O quinze, às crianças acampadas no meio do mato em Memorial de Maria Moura.
Se daqui a cem anos um estudante se deparar com um texto de Rachel terá em suas mãos o documento de um povo, o testemundo de um momento histórico, os detalhes de uma terra . O Quinze, João Miguel, Caminho de Pedras, Dôra, Doralina, Três Marias, O Galo de Ouro, Memorial de Maria Moura: a obra de Rachel de Queiroz atravessará seu tempo como um raio e levará para o futuro o cheiro de sertão que Rachel imprimiu em seus livros.
Para cada novo leitor, ficará marcado que Rachel de Queiroz cumpriu a sua missão de retratar o Ceará para o mundo.
De Arcelino a Duarte. De Conceição a Moura. Para saber mais:
Polêmica, Rachel de Queiroz é uma personagem para mil páginas. Se não há linearidade em sua trajetória, por outro lado, não lhe falta coragem. Como comunista nos anos 30 ou como apoiadora do Golpe Militar nos anos 60, Rachel sempre assinou o que fez. Não passava à margem das situações, seu caminhar era tão consciente como o das mulheres fortes que criou: Marias e Dôras. Se já não bastasse toda essa essência para um bom personagem-vivo, seus frutos são um presente para qualquer biógrafo. Ajudou a fundar um novo estilo literário, foi a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras e, principalmente, amou e escreveu um nordeste enriquecido pelas suas próprias agruras.
Pois foi diante de tantos elementos que poderiam enclausurar o leitor, que a jornalista Socorro Acioli colocou sua pena leve e certeira. Ela narra toda a trajetória de Rachel, desde a infância até pouco antes de sua morte, sem cair na armadilha do épico. Socorro desfia tranqüilamente os fatos, mostrando nas entrelinhas uma personagem incrível. Mas, acima de tudo, humana. Outro fator que oxigena o texto é a memória afetiva da própria Rachel, que através de pequenos discursos diretos costurados ao longo do livro, nos mostra sentimentos e paisagens “conhecidos”. Os de cá, reconhecem um pouco da história cearense. Outros, talvez, reconheçam fagulhas de uma infância perdida ou de tempos mais ingênuos. Em ambos os casos, a leitura vale a pena.
Serviço:
Título: “Rachel de Quiroz”
Autora: Socorro Acioli
Coleção Terra Bárbara
Edição: Fun. Demócrito Rocha
Preço médio: R$ 8,00 |