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Microfísica do Poder

•Por: Grazielle Albuquerque

Uma aula de história do Brasil. Foi essa a tônica da entrevista com a professora Peregrina Capelo. A passos largos e com olhar atento para os escaninhos que fazemos questão de esquecer, Peregrina nos mostrou o caminho das pedras da Antropologia Política. Por ela escapamos do lugar-comum e percebemos que as questões do nepotismo e do autoritarismo fazem parte de uma realidade histórica e construída. A concentração fundiária, o etnocídio indígena, as origens escravocratas e a
relação de parentela formam uma base sólida para se entender problemas atualíssimos.

MP & Sociedade: Professora, a matéria de capa da nossa revista aborda a questão do autoritarismo e do nepotismo como facetas visíveis de algo maior, de uma estrutura social deturpada. Como a senhora avalia isto?

Peregrina Capelo: Olha, antes de abordar a questão em si, é fundamental fazermos algumas considerações teóricas. Acho importante pensar que o ser humano é um ser histórico e, a cada dia que passa, vejo que ele é também um ser plástico, no sentido da estética. Então, sobre ele tem toda uma pedagogia. Aquilo que o Michel Foucault chama de ortopedia social; que são a cultura, o complexo social, as regras, os valores, as visões de mundo, as ideologias etc. Tudo isto está em cima desses sujeitos; produzindo-os. E eles também estão produzindo a si próprios e interagindo com esses fatores. Então, os seres humanos se territorializam, se desterritorializam e se reterritorializam. O que isso quer dizer? Isto explica o movimento da sociedade e do próprio homem. Chegamos a uma sociedade que já está pronta e nos territorializamos nela. Mas, como o ser humano é muito complexo, ele se desterritorializa também. Tanto ele muda, como ajuda a mudar o que está à sua volta. Em uma linguagem menos complexa, é aquilo que o Raul Seixas cantou em sua metamorfose ambulante. Acontece que existem sociedades de grandes desníveis sociais, como é o caso do Brasil e dos países de terceiro mundo, em que a cada dia a separação entre classes sociais cresce assustadoramente. Então, quem está do lado mais fraco desta relação não consegue viver esses processos naturalmente. As pessoas não têm sustentação nem jurídica e nem social para isso. É aquilo que o Deleuze chama de subjetividade lixo. Ficam sem condições de pensar, de usar o pensamento. Citando outro pensador, Marx dizia que a transformação era deixar de ser uma consciência em si, para ser uma consciência para si. Ou seja, saber qual é o meu lugar no mundo. O que é que eu posso fazer. Quem eu sou.

MP & Sociedade: E como essa visão nos ajuda a compreender a sociedade brasileira?
Peregrina Capelo: É engraçado que alguns historiadores falam da “invenção do Brasil”, mas este país já existia. O Brasil já era densamente povoado por índios. Ocorre que o capital cultural português não se adequou ao indígena e isso gerou uma violência física e simbólica sem proporções. Foi o genocídio, o etnocídio. Então, você percebe que na Terra Brasílis, por detrás dessa beleza luxuriante onde não existe pecado do lado debaixo do Equador, havia sangue correndo. É preciso perceber que essa violência que vivemos hoje tem raízes muito profundas. Temos a mania de só ver o Brasil que queremos ver. Antes mesmo de José Bonifácio, a idéia de Império Tropical estava presente nas grandes excursões de pintores e cientistas holandeses e franceses. Eles só viam este Brasil da fantasia. Inclusive, o índio quando aparece nas pinturas é ocidentalizado, é o bom selvagem do Lévi-Strauss. Então, observa-se que essa sociedade colonizada, como as Américas espanhola e portuguesa, foi socializada pelo império da violência.

MP & Sociedade: Então, a idéia de Império Tropical foi criada para camuflar essa violência?
Peregrina Capelo: Não. Acho que era a visão de uma época. Era só o que se queria ou o que se conseguia ver. O próprio Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, dizia: - Imagine, aqueles portugueses horríveis, fétidos, cheios de escorbuto, descendo nas praias belíssimas, com aquele povo luxuriante, todos nus, onde não existia verdade ou pecado... Veja que o próprio Darcy, que é contemporâneo e faz uma Antropologia crítica, entra nesse “barato”. É porque, realmente, nós somos lindos. Essa coisa patropi é apaixonante. Porém, a questão é que apenas isso ficou como registro histórico. Não acho que essa beleza seja algo ideologicamente manipulado como muita gente pensa hoje. É muito mais direto. Eles simplesmente acreditavam que o índio não tinha alma. Só para citar como exemplo, o governo português decretou aqui no Ceará, por volta do final do século XVII, a “guerra justa”. Isto significava que era “justo” matar índios quando eles não se aldeassem, não falassem português, não proferissem a fé cristã, continuassem nômades ou produzindo rituais de pajelança. Então, observadas essas questões, era legítimo e legal matar um índio. Há casos assombrosos como a da destruição de uma etnia inteira aqui no Vale do Jaguaribe, onde ficavam os índios Janduíns, Icós, Jaguaribaras, Jucás. Este episódio foi tão violento que as próprias autoridades locais mandaram cartas aos reis. Quer dizer, em certas ocasiões, até a violência permitida assombrava. Mas, é importantíssimo se pontuar a figura do índio para o que nós somos hoje. O Raimundo Faoro diz que o povo português não teria conseguido penetrar no território brasileiro se não tivesse sido levado pela mão do índio. Por exemplo, fazia parte da “estratégia” portuguesa vir e se deitar na rede da índia, ter um filho e ser absorvido por aquela comunidade. Era o que o Darcy Ribeiro chamava de comadrio. Então, ele já faz parte daquela parentela e a ele muitas coisas são permitidas. Olha aí onde é que nasce a problemática do nepotismo. A partir daí, ele começa a conhecer os segredos da terra: onde tem ouro, pedras preciosas, espécies vegetais importantes. Quer dizer, aquela estratégia de se enfronhar na comunidade, fazer-se de próximo quando lhe era interessante é uma estratégia inteligentíssima. É uma visão muito sofisticada. Eles primeiro perceberam como era a cultura indígena e, depois, passaram a subornar e usurpar essa cultura. Isto para quê? Para ter informação privilegiada. Até hoje a mercadoria mais cara do mundo chama-se informação. Quando eles dominaram os segredos da terra e não precisavam mais dos índios, a violência perdeu o freio, foi institucionalizada. Agora, é preciso ter cuidado com essa questão da manipulação entre portugueses e índios. Não é que um fosse superior e o outro inferior. Era um compasso civilizatório diferente e isso permitiu que se instalasse uma verdadeira carnificina neste país.

MP & Sociedade: E como a questão do nepotismo é articulada neste processo?
Peregrina Capelo: A história do nepotismo está imbricada nisto tudo. Parece que o Brasil se acostumou a ser gerenciado na cozinha de casa, na fofoca palaciana, na base do “é dando que se recebe”. Isto faz parte de uma Antropologia Política. Para se entender o quadro atual é preciso ver a história do ponto de vista material e subjetivo. Há uma série de coisas ligadas, como o tipo de colonização, os laços familiares, a ocupação do espaço. Em relação a este processo, pode-se fazer um recorte do Ceará. Aqui existem duas grandes ribeiras, a do Acaraú e a do Jaguaribe, por onde entraram o gado e as primeiras mercadorias. Existiam famílias de renome comandando essa penetração. Os Garcia D’Ávila, da Torre do Tombo, outras famílias que vinham de Pernambuco ocupar as sesmarias e, antes, as capitanias hereditárias. Estas eram verdadeiros estuários valorativos do nepotismo que vemos hoje. Olhe só o nome: capitanias hereditárias. A terra passando de pai para filho para neto etc. Então, essa idéia de ocupar o espaço tendo como base a questão do núcleo familiar é fundante para você poder compreender o Brasil.

MP & Sociedade: E nós podemos associar essa base familiar também à questão da violência?
Peregrina Capelo: Lógico. Pode associar a tudo. Afinal, qual o papel da família? É o de manutenção, circulação e crescimento do capital. E, para quem? Antes, para o Estado português e, agora, para o Estado brasileiro. Para as elites. Isto desde a época colonial, passando pela republicana, até hoje. A elite neocapitalista atual tem como alicerce os grandes conglomerados familiares. Veja a estrutura de poder de famílias como a Magalhães na Bahia. O Lula, nesse aspecto, é um doido perdido. Mas, ainda assim, já aparecem vestígios que dão conta do enriquecimento ilícito do filho dele. É o dinheiro e o poder que circula familiarmente. Por isso, comecei lhe falando que o ser humano faz parte de uma construção histórica. Para que se perceba que o nepotismo ou a violência não são fenômenos dados e acontecidos. Eles têm origem e nós temos que entendê-la.

MP & Sociedade: Então, podemos dizer que o favorecimento por interesses familiares e o autoritarismo têm uma relação profunda com a ocupação do espaço, da terra, do poder?
Peregrina Capelo: Sim. Por exemplo, aqui no Ceará: quanto mais terra, mas gado, quanto mais gado, mais dinheiro e mais poder. E de que forma isto é estabelecido? Pela disputa de terras. É interessante como a gente volta àquele ponto inicial e vê que tudo está entrelaçado. Lembre-se de que a primeira grande violência foi contra os índios com o objetivo de dominar o território. E o autoritarismo, a luta pelo poder, costuma ser brutal em certos aspectos. No Ceará, a violência contra o corpo e a cultura indígenas foi tão forte que até no nosso inconsciente coletivo é preciso botar um microscópio social para ver os traços herdados. As pessoas têm pavor a se enxergarem como descendentes de nativos. Isto porque o índio, até hoje, é associado ao bicho selvagem. Essa mentalidade ficou nos nossos escaninhos. Apenas nos últimos anos é que está tendo um movimento para resgatar a importância de algumas etnias como os Tapebas. Outra coisa fundamental para se entender a formação do autoritarismo é que fomos um país escravocrata. A base do nosso sistema econômico era sustentada pelos escravos. Isto há pouco mais de 100 anos, o que não é nada do ponto de vista histórico. E digo mais: todos nós ainda carregamos este ranço escravista. Está na alma, no cotidiano, na relação da dona-de-casa com a sua empregada doméstica, no tratamento ao humilde e a quem nos é subalterno. Ou seja, o autoritarismo é também construído social e culturalmente. Agora, isto é potencializado pelos imensos abismos sociais que temos. O desnível e a exploração existem desde o primeiro momento. Era a disputa entre os que tinham terra e os que não tinham, o que continua até hoje. Podemos ver a reedição de conflitos do passado no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que torna inegável que em mais de 500 anos não resolvemos a questão fundiária neste país. Há casos emblemáticos como o assassinato do Chico Mendes e da Irmã Dorothy Stang, que dão uma dimensão midiática a isso.
MP & Sociedade: Falamos muito na construção histórica da violência e um dos pontos de destaque do seu trabalho é o estudo da pistolagem no sertão. Gostaria que a senhora falasse um poço mais sobre esses fenômenos “irmãos”.

Peregrina Capelo: Eu havia falado em duas ribeiras: o vale de Acaraú e o vale do Jaguaribe. Estes foram os dois primeiros lugares ocupados no Estado. Em determinado estágio da ocupação, o índio já não era mais problema porque havia sido completamente dizimado. Então, qual era o novo obstáculo? Os próprios proprietários de terras. Daí surgem as disputas pela questão da cerca, como aconteceu com os Sampaios e os Alencar, em Exu, ou com os Montes e os Feitosas, aqui nos Inhamuns. Por outro lado, como já não existia uma organização e uma cultura indígena preservadas, aos poucos, os nativos que restaram foram morar nas fazendas e se tornaram os vaqueiros. Eles é que compunham o grande exército particular dos latifúndios. Eram fiéis e defendiam os potentados em relação à honra da família, aos interesses políticos e aos limites de terras. Dentro deste universo temos histórias incríveis. Uma delas é a da dona Fideralina Augusta, de Larvas da Mangabeira, que na época do Padre Cícero, tinha um exército particular de 100 homens. O peso político que se tentava ostentar e transmitir era tão volumoso que o próprio nome da dona Fideralina é uma homenagem à Federação dos Estados. E veja só como isso não estanca no tempo. O neto dela, Vicente Augusto, foi deputado aqui na Assembléia Legislativa e morreu há poucos anos. O ex-reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o Roberto Cláudio, também era descendente da Fideralina. É interessante perceber como esses fios do poder vão sendo tecidos e retecidos.

MP & Sociedade: Dentro deste contexto, a questão da pistolagem ou do banditismo acaba sendo também uma forma de inserção social?
Peregrina Capelo: Sim, mas é preciso fazer algumas diferenciações históricas. Por exemplo, o cangaço foi uma revolta jovem. Foi um fenômeno social que nasceu e morreu. Era feito por uma população que estava boiando no sistema, não queria se atrelar à grande propriedade e não encontrava espaço em outro mercado de trabalho. Eles juntaram-se e isto fez com que ao longo do território nordestino tivés

semos muitos grupos de cangaceiros, não só foi o do Lampião. Agora, o que acontece com a pistolagem? Ela é filha direta dessa forma de se possuir a terra. Dessa sociedade onde o morador do espaço rural não tinha possibilidade de ir para nenhum outro lugar. A não ser que ele fosse para a Amazônia, fosse construir Brasília, fosse para o eixo Rio-São Paulo... Existiam poucas linhas de fuga para essas pessoas. Mas, se ele ficasse aqui, seria um réles camponês ou poderia transformar-se no homem de confiança do fazendeiro. Neste ponto é que se cria um laço de fidelidade pelo qual o capataz pode fazer tudo para defender a honra e os interesses da família do fazendeiro, inclusive, empunhar a arma. Este é o antigo tipo de pistoleiro, o romântico. Ele acha mais justo roubar do que matar. No grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, tem um trecho maravilhoso em que o personagem Riobaldo diz que o jagunço (o equivalente mineiro do pistoleiro) não mata, guerreia; ele não rouba, pilha. Apesar da colonização diferente do Sul do país também há traços de pistolagem lá, com peculiaridades, mas há. Isto porque a estrutura de poder é uma só. Agora, acontece que a modernização do Nordeste é mais retardatária do que em outros espaços, com isso a pistolagem foi mais visualizada.

MP & Sociedade: A senhora falou como surgiu o pistoleiro romântico, este ligado ao fazendeiro pelo laço da fidelidade. No entanto, há outras tipificações mais modernas.
Peregrina Capelo: Sim. Desde que o sertão vem se modernizando, o cabra sai da fazenda e vai para a sede do município. É o pistoleiro profissional que faz parte de um mercado, o que mata por dinheiro e não mais pela honra. É aquele que executa a vingança privada como um prestador de serviço, avulso e sem hierarquia. E o terceiro tipo é o hi-tech. Ele tem atividades múltiplas: rouba, mata, assalta e seqüestra. Veja a diferença do primeiro tipo, aquele romântico que tem todo um código de ética. Isto é interessante para que possamos ver os cortes epistemológicos deste ser multifacetado.

MP & Sociedade: Com base em todos esses anos de pesquisa, a senhora observa que o sertão realmente se modernizou ou apenas ganhou uma faceta mais “jovem”?
Peregrina Capelo: O sertão está passando por profundas transformações. Logicamente que esta modernidade chegou a ele. Mas, isto criou uma situação ambígua. O sertão ainda tem um pé em questões arcaicas, tanto no sentido da posse da terra como nos valores, e outro em questões moderníssimas. Por exemplo, dentro de uma perspectiva semiótica, é muito interessante você chegar em Quixeramobim e ver vizinhos sentados na calçada esperando o “ventinho do Aracati” e do lado dessas casas tem um cyber café pelo qual se entra em contato com Nova Iorque, Tóquio etc. Então, o sertão é esse espaço liminar. Agora, em termo de estrutura de poder, houve um deslocamento do antigo coronel para o prefeito e, mais recentemente, para o vereador. Inclusive, é interessante perceber o aumento no número de vereadores ligados a questões populares. Ainda vai demorar muito para uma mudança grande, mas acho que em alguns pontos há avanços que se fazem notar. Acredito que esta transformação que se avizinha, com as influências da modernidade, pode ser vista não só no Ceará, mas estendida a todos os espaços de cafundós deste Brasil. Digo isto porque a categoria sertão que eu trabalho não é uma categoria geopolítica, mas o sertão como tudo aquilo que está longe, ao qual não se chega fácil. São os sertões que começam a ter acesso às antenas parabólicas e isto, querendo ou não, acarreta mudanças. É muito inquietante. Mas, também não se pode ter uma visão ingênua das coisas porque a informação em si não gera transformação. Além do que, sabemos, as notícias que são transmitidas pelos veículos de comunicação de massa são ideologicamente muito manipuladas. Agora, há dois elementos que ajudariam em muito nas mudanças da estrutura de poder: notícias referenciadas e um líder realmente comprometido com as questões da comunidade. E, mais uma vez eu digo, nas periferias das pequenas cidades crescem essas lideranças mais comprometidas.

MP & Sociedade: Seria uma mudança que começaria por pequenos pontos?
Peregrina Capelo: Acredito que sim. Em Limoeiro, na periferia de um distrito chamado Bixopá há uma líder, uma mulher miúda e parecida com uma daquelas índias Janduíns, que tem um poder incrível. Lógico que não é visível, mas ela arregimenta uma comunidade inteira. E, sem dúvida, isso se reflete em uma eleição. Então, existe um poder microscópico e capilar que está por debaixo de tudo. Ele pode mudar estas práticas de nepotismo e de autoritarismo que estamos falando. Isto não é uma coisa nova. Vários pensadores como o Michel Foucault, o Deleuze, o Nietzsche, o Antônio Negri trabalham com isso. O que eu estou lhe dizendo é que as grandes transformações não são revolucionárias. As transformações, diante dessa sociedade de massa, só são possíveis a partir desse poder capilar, cotidiano.