Da criança ao idoso, a luta de Zilda Arns
Depois de tornar-se referência na assistência à infância em todo o Brasil – com um trabalho reconhecido
 |
em organismos internacionais – a Pastoral da Criança lançou-se a um novo desafio: promover a qualidade de vida e a cidadania de milhões de idosos em situação de risco.
Essa linha de atuação, abraçada há quase nove anos pela instituição, foi exposta pela fundadora e coordenadora das Pastorais da Criança e da Pessoa Idosa, a médica sanitarista e pediatra Zilda Arns Neumann, em visita às Promotorias Cíveis de Fortaleza, no começo de julho. No Ceará, a dirigente participou da III Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Zilda aproveitou a estadia na Capital e trocou idéias com promotores de Justiça diretamente ligados à proteção social. No Fórum Clóvis Beviláqua, foi recebida pelos Promotores de Justiça Roza Lina Maia, Francisco Raimundo de Araújo, Janemary Pontes, Fernando Costa e Lúcia Gurgel.
Ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, assim como a Pastoral da Criança, a Pastoral da Pessoa Idosa toma emprestada do projeto pioneiro a metodologia. A metáfora bíblica da multiplicação, expressa no Evangelho de São João, é base para as ações, na medida em que promovem o repasse de saberes e de solidariedade. Na prática, esse semear ocorre por meio da capacitação de voluntários para atuação junto a grupos de pessoas, em comunidades dessassistidas.
No caso dos Da criança ao idoso, a luta de Zilda Arns idosos, ocorrem visitas mensais em que são verificados indicadores de saúde e bem-estar diversos. Os dados, catalogados em um sistema de informação, servem de base a ações preventivas. Segundo Zilda Arns, 81 mil pessoas são atualmente atendidas pela Pastoral. “Muitas delas com mais de 100 anos”, destaca, com orgulho.
No Ceará, a Pastoral da Pessoa Idosa busca estabelecer parceria com o governo estadual, para a implementação de ações. A construção de uma sede estadual e a celebração de convênios são os principais objetivos de Zilda Arns no Estado. Em entrevista à Ministério Público & Sociedade, a médica mostra como medidas simples podem dar maior dignidade aos longevos. Confira.MP & Sociedade - Doutora, a senhora falou durante o encontro com os promotores dessa nova linha de frente que a Pastoral vem adotando, que é a proteção ao Idoso. O que é prioritário nesse esforço, diferentemente do que se faz com a criança? Zilda Arns – O apoio afetivo aos idosos.
Para tanto, fazemos a cada mês visitas a eles. Somos conhecedores do Estatuto do Idoso, dos direitos dos idosos. E a gente observa se o idoso está realmente vivendo uma vida com dignidade. Procuramos aproximar a família do idoso. O idoso está, hoje, sendo muito explorado pela família. Muitas vezes, ele não usufrui da pensão, da aposentadoria à qual tem direito. Se não dá o dinheiro para os filhos ou netos, sofre violência, em muitos casos. Violência verbal, principalmente. Fazemosuma visita afetiva, sempre multiplicando o saber e multiplicando a fraternidade cristã.
É um trabalho da Igreja Católica, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), mas trabalhamos ecumenicamente. Temos todas as religiões tanto na Pastoral da Criança quanto na do Idoso, incluindo muçulmanos, batistas, a Assembléia de Deus, entre outros. MP & Sociedade - A senhora acha que, nesse espírito de ampliar parcerias, o Ministério Público pode dar uma contribuição importante, por exemplo, a partir do trabalho das Promotorias do Idoso? Zilda Arns – A Pastoral da Criança procura resolver o problema em casa. Quando a gente vê que realmente não se consegue resolver, procuramos outros tipos de ajuda, como a de um representante do Ministério Público. Mas sabemos que, muitas vezes, a violência aumenta quando se faz a denúncia. Tem que se ter cuidado para que isso não aconteça.
MP & Sociedade – A senhora falou dos indicadores usados para mapear a questão do idoso. O que se leva em conta? Zilda Arns – Levamos em conta, na área da saúde, se ele toma dois litros ou mais de líquido por dia. Se alimenta-se de acordo com o que é uma necessidade básica. Se está vacinado. Se faz exercícios pelo menos três vezes por semana. Se é engajado na comunidade, em alguma atividade social. Isso é muito importante.
MP & Sociedade - São cuidados realmente básicos. Zilda Arns – Muitas vezes, eles têm vergonha de andar sozinhos. Não tem quem vá junto. Então, fazemos coisas simples como reunir dois ou três idosos
para caminharem juntos. Eles ficam animados e, em vez de fazerem os exercícios três vezes por semana, fazem todos os dias. Podemos ver uma esperança nova que os idosos sentem com essa visita que nós fazemos. E há também a questão da espiritualidade. Damos muito valor a isso, a Deus, também à fraternidade, ao amor que se deve ter por quem mais necessita. Eles sentem isso na prática.
MP & Sociedade – A Pastoral da Criança, como a senhora mencionou, começou no Nordeste. Queria saber se, em relação ao idoso, também existe uma carência maior nessa região. Zilda Arns – O projeto piloto da Pastoral da Criança começou no Paraná. Quando reduzimos a mortalidade infantil de 127 para 28 por mil nascidos vivos, iniciamos a expansão pelo Nordeste. Fortaleza foi um dos núcleos, além de outras cidades do Maranhão, Bahia, Alagoas, onde começamos, há cerca de 23 anos. Como temos muito apoio da Pastoral da Criança, no sentido de formar redes de solidariedade no Brasil inteiro, nas comunidades mais pobres, torna-se mais fácil para nós essa luta. A Pastoral da Pessoa Idosa já vem se desenvolvendo. Mas, precisamos de mais recursos para capacitar mais pessoas. A condução é cara, não há dinheiro sempre.E, às vezes, os idosos necessitam de apoio material e não temos
como oferecer.
|